Depois de alta, número de eleitos com nomes religiosos nas urnas cai 14% em 2020

Depois de alta, número de eleitos com nomes religiosos nas urnas cai 14% em 2020

PSD foi partido que mais elegeu políticos que usaram nomes religiosos na urna

Por Vitória Régia da Silva

Apesar do crescente número de candidatos que vão às urnas com nome religioso, este ano apenas 679 foram eleitos. O número representa uma queda de 14% em relação aos eleitos de 2016, segundo levantamento quantitativo da Religião e Poder com base nos nomes de urna declarados por candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre 2012 e 2016, entretanto, houve um aumento de 100 eleitos: de 687 para 786.

Religião e Poder já tinha observado um aumento no uso de nomes religiosos por candidatos a cargos eletivos no Brasil nas últimas duas eleições municipais. Neste pleito, foram 12.759 candidatos em todo o país, um aumento de 24% em relação a 2016. A análise também revelou que 712 candidatos das eleições de 2016 decidiram adotar o nome religioso nas urnas somente este ano. 

Gênero, raça e cristianismo

Dos 679 eleitos com nomes religiosos na urna, a maior parte está concentrada no legislativo, com 649 vereadores. Prefeitos são 30. A grande maioria é masculina, o que segue a sub-representação das mulheres na política: entre os eleitos com nome religioso na urna neste ano, 87% são homens e 13% mulheres. Os negros são maioria (64%) em comparação com brancos (33%), amarelos (0,5%) e indígenas (0,5%). 

Assim como nas candidaturas, os títulos religiosos dos eleitos demonstram um protagonismo cristão, principalmente evangélico, no uso dessa estratégia política. Entre os eleitos, há 270 ocorrências de irmã(o), 170 de pastor (a) e 69 de messias. Além disso, o uso de padre (22) e Deus (22) também se destaca. Apenas três eleitos usaram o nome “pai”, que pode ser relacionado às religiões de matriz africana. 

Irmã Neide, vereadora de Bonfim (RR), foi pela primeira vez eleita pelo PROS nas urnas em 2020. No entanto, não foi a primeira tentativa. Esta foi a terceira vez que concorreu ao cargo, as outras duas vezes ficou como suplente e assumiu o cargo nas duas situações. Em entrevista à Religião e Poder, ela diz que escolheu usar o nome irmã nas urnas “porque é assim que as pessoas me chamam e como me conhecem”. 

Evangélica e única vereadora eleita no município, diz que é importante a presença de cristãos no espaço da política institucional: “Não dá para dar uma identidade religiosa ao mandato, mas sem dúvida os princípios cristãos farão uma grande diferença dentro da Câmara Municipal de Bonfim”, destaca. 

Assim como o PROS de Irmã Neide, são principalmente nos partidos de direita que se concentram os eleitos. Neste espectro político estão presentes 391 dos eleitos, enquanto no centro são 182 e, na esquerda, 106. O partido que mais elegeu políticos que usaram nomes religiosos na urna foi o PDS, com 72 eleitos, seguido do PP (67) e Republicanos (59). Na outra ponta estão PSOL, DC e PMB, com apenas um eleito cada.

Prefeitos nas capitais

Se o uso do nome religioso nas urnas é mais comum entre candidatos que buscam se destacar e ter aprovação prévia dos eleitores, na disputa pelo Executivo, esta não é uma estratégia tão bem vista. No primeiro turno, foram eleitos 30 prefeitos que adotaram o nome religioso. 

Numa análise qualitativa, Religião e Poder levantou que nas capitais foram 86 candidatos à prefeitura e vice-prefeitura que tinham manifestado sua identidade religiosa na campanha, mas a maioria não usou nome religioso nas urnas. Essa diferença acontece porque o eleitor não vê da mesma forma os candidatos a cargos majoritários e parlamentares, analisa Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

“Para cargos majoritários, os políticos sabem que têm que fazer alianças e ter estratégia de maior alcance, e colocar nome de urna limita bastante essa visibilidade pública. Para vereança e deputados, candidatos revelam uma relação mais estreita com comunidades religiosas, por isso, há mais sentido no uso desses títulos e identidades específicas, mas quando é cargo majoritário, não, pois o alcance precisa ser mais amplo, para além de comunidades religiosas”. 

No primeiro turno, só houve um prefeito eleito com identidade religiosa nas capitais: Marquinhos Trad (PSD), em Campo Grande (PSD), da Igreja Evangélica Atos de Justiça. No segundo turno, 11 prefeitos e três vices disputavam o Executivo, e sete foram eleitos: seis prefeitos e um vice. Um dos destaques foi José Sarto (PDT), eleito prefeito de Fortaleza, que é de esquerda e faz parte da Comunidade Cristã Videira. 

Segundo a pesquisadora do Iser, ele optou por não acionar sua identidade religiosa durante a campanha. Outro destaque foi Ricardo Nunes (MDB), vice-prefeito na chapa de Bruno Covas (PSDB), reeleito prefeito de São Paulo, identificado com a ala conservadora católica. Além disso, o deputado federal João Henrique Caldas (PSB), o JHC, membro da Igreja Internacional da Graça de Deus, foi eleito prefeito de Maceió (AL). 

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